II.1. O tradicionalismo de Russell Kirk e a mentalidade conservadora (1918-1994)

Russell Kirk (1918–1994) foi um filósofo político americano, considerado uma das figuras mais importantes do conservadorismo americano.

Figura: Russell Kirk

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kirk_1962.jpg

Nascido em Plymouth, Michigan, ele obteve seu doutorado na Universidade de St. Andrews, na Escócia, e passou grande parte do início de sua carreira como professor na Universidade Estadual de Michigan. Kirk foi um escritor prolífico, autor de mais de 30 livros, fundador de periódicos influentes como Modern Age e The University Bookman, e colaborador de milhares de colunas e ensaios para publicações como a National Review. Ele viveu uma vida reclusa e noturna em sua casa ancestral em Mecosta, Michigan, onde ministrou seminários e orientou jovens conservadores até sua morte em 1994.

Politicamente, ele apoiou a campanha presidencial de Barry Goldwater em 1964, mas se considerava principalmente um homem de letras, e não um ativista, enfatizando as dimensões morais e culturais em detrimento da política partidária. Kirk criticou ideologias de todo o espectro político, incluindo o capitalismo desenfreado, o libertarianismo (que ele considerava promotor do “atomismo social”) e o socialismo, argumentando que o verdadeiro conservadorismo rejeita todas as formas de fanatismo e ideologia em favor da prudência, da lei natural e da sabedoria herdada.

Russell Kirk sobre o fusionismo de Goldwater
A posição de Russell Kirk sobre o fusionismo de Goldwater (leia sobre esse tema no capítulo seguinte) foi caracterizada por ceticismo e oposição filosófica, apesar de seu envolvimento prático na campanha. O fusionismo tentou unir o conservadorismo libertário e o tradicionalista. Kirk se opôs ao fusionismo porque acreditava que ele tentava reconciliar visões de mundo fundamentalmente incompatíveis — o libertarianismo e o conservadorismo tradicionalista. Ele argumentou que a ênfase do libertarianismo na liberdade individual e no racionalismo entrava em conflito com os princípios conservadores centrais da ordem moral transcendente, da fé religiosa e do respeito à tradição. Kirk via esses elementos como essenciais para o conservadorismo genuíno, enquanto o libertarianismo priorizava a escolha individual em detrimento dos valores comunitários e da sabedoria histórica. Essa divergência filosófica, em sua opinião, não poderia ser resolvida pela síntese ideológica do fusionismo, que ele considerava prejudicial à integridade e à coerência do movimento conservador. Apesar dessas objeções, Kirk se envolveu na campanha de Goldwater, reconhecendo a necessidade pragmática de formação de coalizões no movimento conservador.
Kirk acreditava que ceder em princípios conservadores fundamentais prejudicaria a credibilidade do movimento. No entanto, seu envolvimento estratégico na campanha de Goldwater demonstrou uma disposição para dialogar pragmaticamente com a coalizão conservadora mais ampla, apesar das diferenças ideológicas. Essa tensão entre manter a pureza filosófica e alcançar a viabilidade política reflete um desafio mais amplo dentro do conservadorismo americano, à medida que a divisão ideológica entre elementos libertários e tradicionalistas continua a influenciar a trajetória do movimento.

A obra mais influente de Kirk é The Conservative Mind: From Burke to Eliot, publicada pela primeira vez em 1953 como uma expansão de sua tese de doutorado.

Este livro traça o desenvolvimento do pensamento conservador na tradição anglo-americana, começando com Edmund Burke e estendendo-se a figuras como T.S. Eliot. Destaca as contribuições de estadistas (como John Adams, Alexander Hamilton e Benjamin Disraeli), escritores (como Samuel Taylor Coleridge, Nathaniel Hawthorne e Irving Babbitt) e pensadores (como Alexis de Tocqueville e John Henry Newman).

Russell Kirk sobre o racionalismo na política
A oposição de Russell Kirk ao racionalismo na política derivava de sua crença de que este priorizava o raciocínio abstrato em detrimento da sabedoria acumulada da tradição e da experiência. Ele argumentava que o racionalismo pressupunha que a razão humana poderia conceber sistemas sociais perfeitos, desconsiderando as complexidades da natureza humana e da sociedade. Kirk acreditava que essa abordagem levava à rejeição de costumes e instituições históricas que haviam comprovado seu valor ao longo do tempo. Ele via o racionalismo como inerentemente utópico, frequentemente resultando em consequências não intencionais quando aplicado a reformas políticas e sociais. Para Kirk, o conservadorismo genuíno exigia humildade no reconhecimento dos limites da razão humana, confiando, em vez disso, na orientação das tradições estabelecidas e da ordem moral.
Kirk argumentava que o racionalismo minava o tecido social ao promover mudanças radicais baseadas em ideais teóricos em vez de sabedoria prática. Ele enfatizava a importância de preservar “as coisas permanentes” — os elementos duradouros da experiência humana que proporcionam estabilidade e significado. Ao confiar unicamente na razão, os racionalistas negligenciavam as dimensões morais e espirituais da vida, que Kirk considerava cruciais para uma sociedade saudável. Ele acreditava que a política deveria se basear no respeito pela continuidade histórica e no reconhecimento de verdades transcendentes, em vez da busca por projetos abstratos e racionalistas para a sociedade. Essa oposição ao racionalismo destacou o compromisso de Kirk com uma filosofia conservadora enraizada na tradição, na comunidade e na imaginação moral.
Ele alerta que o racionalismo corrói os “preconceitos” (convicções profundas moldadas por gerações) que proporcionam coesão social, levando a ideologias que priorizam a autonomia individual ou o planejamento estatal em detrimento dos laços comunitários e da ordem divina.
Em vez de projetos racionalistas, Kirk defende um conservadorismo baseado no desenvolvimento orgânico, onde a mudança ocorre gradualmente e em harmonia com as instituições herdadas, rejeitando a ênfase do Iluminismo no progresso, no secularismo e na racionalidade como simplista e, em última análise, destrutiva.

Kirk posiciona o conservadorismo como uma disposição moral e imaginativa — uma “negação da ideologia” — enraizada na fé religiosa, na poesia, na tradição e na “política da prudência”, em vez de na economia ou na teoria abstrata. Ele o contrasta fortemente com a crença do liberalismo na perfectibilidade humana, na mudança rápida, no secularismo e na rejeição da tradição, bem como com outros “erros” modernos, como o coletivismo, o individualismo atomístico, o industrialismo e a sociedade de massas.

A Teoria da Justiça de John Rawls como exemplo das falhas do racionalismo na política
John Bordley Rawls (1921-2002) foi um filósofo americano da tradição da esquerda democrática (saiba mais sobre ele no capítulo apropriado).
Em sua “Teoria da Justiça“, John Rawls emprega uma hipotética “posição original” por trás de um “véu da ignorância”, onde agentes racionais, desprovidos de conhecimento sobre suas circunstâncias pessoais, supostamente concordariam com dois princípios de justiça: (1) liberdades básicas iguais para todos, com prioridade lexical sobre outras considerações, e (2) desigualdades sociais e econômicas organizadas para beneficiar os menos favorecidos (o princípio da diferença, ou regra maximin), garantindo, ao mesmo tempo, igualdade equitativa de oportunidades.
Essa estrutura é essencialmente racionalista, assumindo que a lógica pura e o raciocínio egoísta podem derivar princípios universais para uma sociedade justa, independentemente do contexto histórico ou das particularidades culturais. Kirk consideraria isso emblemático da arrogância do Iluminismo, onde teóricos como Rawls presumem que a razão humana pode projetar a sociedade do zero, ignorando as “coisas permanentes” — como tradições morais, hierarquias sociais e instituições orgânicas — que evoluíram ao longo das gerações para lidar com as imperfeições humanas. A aversão de Kirk a esse racionalismo surge de várias razões interligadas:
Desconsideração da Sabedoria e Prescrição Históricas: O racionalismo eleva o intelecto individual acima da “sabedoria dos ancestrais”, tratando a sociedade como uma folha em branco passível de redesenho. Kirk enfatizou que os costumes e preconceitos (no sentido burkeano de convicções profundamente arraigadas e moldadas pela experiência) fornecem estabilidade e coesão essenciais. O véu abstrato de Rawls, por outro lado, abstrai as complexidades do mundo real, como a diversidade cultural, os laços comunitários e as intuições morais, potencialmente justificando reformas radicais que desmantelam instituições comprovadas. Kirk alertou que isso leva a consequências não intencionais, como visto em revoluções históricas impulsionadas por ideologias racionalistas (por exemplo, a Revolução Francesa), que prometiam perfeição, mas entregaram o caos.
Superestimação dos Limites da Razão Humana: Kirk acreditava que o racionalismo fomenta a arrogância ao presumir que a razão pode compreender e controlar totalmente a dinâmica social, negligenciando os mistérios, as fragilidades e as dimensões espirituais da natureza humana. Na política, isso se manifesta como uma rejeição da variedade, das ordens e das classes em favor da uniformidade e do igualitarismo — marcas registradas dos princípios de Rawls, que priorizam a imparcialidade em detrimento das desigualdades naturais que Kirk considerava necessárias para a saúde da sociedade. A inclinação secular e progressista do racionalismo entra em conflito com a fé de Kirk em uma lei divina ou natural que modera a ambição humana.
Potencial para Excesso Utópico e Tirania: Teorias abstratas, desvinculadas da tradição, convidam à implementação dogmática, corroendo liberdades como os direitos de propriedade (que Kirk vinculava inextricavelmente à liberdade). A exclusão, por Rawls, de amplas liberdades econômicas de seu primeiro princípio e seu foco na igualdade redistributiva poderiam, na visão de Kirk, abrir caminho para intervenções coercitivas do Estado, espelhando o “atomismo social” que ele criticou tanto no libertarianismo quanto no socialismo.
As descobertas empíricas de Norman Frohlich e Joe A. Oppenheimer esclarecem ainda mais por que a crítica de Kirk é pertinente, ao exporem a desconexão entre as construções racionalistas e o comportamento humano real. Em uma série de experimentos de laboratório (detalhados em seu livro de 1992, Choosing Justice: An Experimental Approach to Ethical Theory, e em artigos anteriores, como o estudo de 1987 publicado no British Journal of Political Science), eles simularam a posição original de Rawls com grupos sob condições de imparcialidade e informação imperfeita, onde os participantes deliberaram e votaram sobre princípios de distribuição de renda, com consequências reais atreladas aos resultados. Contrariamente à previsão de Rawls de que agentes racionais escolheriam a regra maximin (princípio da diferença) para se protegerem contra os piores resultados, nenhum grupo experimental a escolheu; foi a opção menos popular, considerada excessivamente restritiva. Em vez disso, aproximadamente 79% dos grupos optaram por um princípio “intuicionista”: maximizar a renda média, impondo uma restrição mínima (uma rede de segurança para evitar a miséria), equilibrando a eficiência com a segurança básica. Essa abordagem híbrida, que permite desigualdades, mas garante um mínimo, reflete uma intuição mais pragmática e baseada na experiência, em vez de uma dedução puramente racional.
Esses resultados reforçam o argumento de Kirk de que o racionalismo na política é falho porque impõe suposições artificiais (por exemplo, aversão extrema ao risco sob o véu) que não se alinham com a forma como as pessoas realmente raciocinam ou cooperam imparcialmente. Mesmo em ambientes controlados que se aproximam do experimento mental de Rawls, os participantes recorreram a considerações morais e práticas mais amplas — ecoando os “preconceitos” e costumes que Kirk valorizava — em vez de aderir à lógica maximin abstrata. Essa deficiência empírica valida o alerta de Kirk contra o excesso racionalista: teorias como a de Rawls podem parecer convincentes isoladamente, mas falham quando testadas contra a natureza humana, podendo levar a políticas que ignoram a sabedoria do mundo real e convidam à ruptura social. A alternativa de Kirk — o conservadorismo como uma humilde afirmação da tradição — serve, portanto, como um baluarte contra tais excessos intelectuais, promovendo uma estabilidade duradoura em vez de ideais passageiros.

No cerne das ideias de Kirk estão seis “cânones” do pensamento conservador, que ele delineia logo no início do livro como princípios orientadores. Não se tratam de dogmas rígidos, mas de uma síntese de valores duradouros extraídos de conservadores históricos:

  1. Crença em uma ordem transcendente: A sociedade é governada por uma estrutura moral baseada na revelação divina, na lei natural ou na tradição antiga, e não apenas em invenções humanas.
  2. Apreço pela variedade e pelo mistério da existência humana: O conservadorismo celebra a diversidade de costumes, classes e diferenças individuais, opondo-se à uniformidade ou ao nivelamento.
  3. Convicção de que uma sociedade civilizada requer ordens e classes: Distinções e hierarquias naturais são essenciais para a estabilidade social, rejeitando o nivelamento igualitário.
  4. Persuasão de que liberdade e propriedade estão indissoluvelmente ligadas: A propriedade privada é um baluarte contra a tirania e um fundamento para a liberdade individual.
  5. Fé na prescrição (costumes, convenções e usos antigos): Práticas e instituições consagradas carregam mais sabedoria do que inovações racionalistas.
  6. Reconhecimento de que a mudança pode não ser uma reforma salutar: a inovação prudente deve ser gradual e conciliada com as tradições, evitando alterações precipitadas ou radicais.

Esses cânones enfatizam a reverência aos ancestrais, a responsabilidade para com as gerações futuras, o papel da imaginação e da poesia na política e os perigos da arrogância ou do progresso desenfreado.

A obra de Kirk continua sendo um texto fundamental, reimpresso em múltiplas edições e idiomas, para a compreensão do conservadorismo como uma defesa atemporal da ordem, da virtude e da alma humana contra os excessos da modernidade.

A habilidade conservadora de reformular suas convicções para se adequarem aos tempos.
Mike Lee (senador dos EUA por Utah), em seu discurso “O que vem a seguir para os conservadores” na Heritage Foundation em 29 de outubro de 2013, disse:
Em 1977, o Partido Republicano estava em desordem. A cúpula do partido havia sido desacreditada por fracassos políticos e desastres em políticas públicas, tanto internas quanto externas. Uma nova geração de conservadores de base estava surgindo para desafiar a cúpula.
O ápice desse desafio foi a campanha primária de Ronald Reagan em 1976 contra um incumbente da cúpula, muito menos conservador. Essa campanha fracassou, é claro, e foi ridicularizada pelos figurões de Washington como uma tola “guerra civil” que, no fim das contas, serviu apenas para eleger democratas.
Em outras palavras, já vimos isso antes. E, claro, agora sabemos que Reagan e o movimento conservador foram vindicados em 1980.
Portanto, é tentador para os conservadores de hoje acreditar que a história está prestes a se repetir, que nossas lutas com o establishment republicano são apenas um prelúdio para uma vitória predeterminada e que nossa própria vindicação – o 1980 de nossa geração – está logo ali.
Mas ainda falta uma peça, uma diferença gritante entre o desafio conservador bem-sucedido ao establishment de Washington no final da década de 1970 e nosso desafio ao establishment hoje.
Grande parte da diferença pode ser encontrada no que aconteceu entre 1976 e 1980 – o trabalho árduo e heroico de traduzir os princípios fundamentais do conservadorismo em reformas políticas novas e inovadoras.
Em A Mente Conservadora, Russell Kirk observou que “os conservadores herdam de [Edmund] Burke um talento para reexpressar suas convicções para se adequarem ao tempo”.
Foi exatamente isso que os conservadores do final da década de 1970 fizeram. As ideias que definiram e impulsionaram a Revolução Reagan não vieram de uma montanha gravada em tábuas de pedra; elas foram forjadas em um debate aberto, fervilhante e diversificado sobre como o conservadorismo poderia realmente enfrentar os desafios daquela época. Esse debate convidou todos os conservadores e, como sabemos, elevou os melhores.

(discurso completo em https://www.lee.senate.gov/2013/10/what-s-next-for-conservatives)

Texto selecionado

RUSSELL KIRK. A MENTE CONSERVADORA. De Burke a Eliot. 1953.

A Ideia de Conservadorismo

(…)

Qualquer conservador bem informado reluta em condensar sistemas intelectuais profundos e complexos em algumas frases pretensiosas; prefere deixar essa técnica para o entusiasmo dos radicais. O conservadorismo não é um corpo fixo e imutável de dogmas; os conservadores herdam de Burke o talento para reformular suas convicções de acordo com o tempo. Como premissa de trabalho, no entanto, pode-se observar aqui que a essência do conservadorismo social é a preservação das antigas tradições morais da humanidade. Os conservadores respeitam a sabedoria de seus ancestrais (essa expressão era de Strafford e de Hooker antes de Burke a iluminar); eles duvidam de alterações radicais. Pensam que a sociedade é uma realidade espiritual, possuidora de vida eterna, mas de uma constituição delicada: não pode ser descartada e reformulada como se fosse uma máquina. “O que é conservadorismo?” Abraham Lincoln perguntou certa vez: “Não é a adesão ao antigo e testado, contra o novo e não testado?” É isso, mas é mais. F.J.C. Hearnshaw, em seu livro “Conservadorismo na Inglaterra”, lista uma dúzia de princípios dos conservadores, mas talvez estes possam ser compreendidos em um catálogo mais conciso. Penso que existem seis cânones do pensamento conservador:

(1) Crença em uma ordem transcendente, ou conjunto de leis naturais, que governa a sociedade, assim como a consciência. Os problemas políticos, em essência, são problemas religiosos e morais. Uma racionalidade restrita, o que Coleridge chamou de Entendimento, não pode, por si só, satisfazer as necessidades humanas. “Todo conservador é um realista”, diz Keith Feiling: “ele sabe que existem grandes forças no céu e na terra que a filosofia humana não pode sondar ou compreender.” (3) A verdadeira política é a arte de apreender e aplicar a justiça que deve prevalecer em uma comunidade de almas.

(2) Afeição pela variedade e mistério proliferantes da existência humana, em oposição à uniformidade restritiva, ao igualitarismo e aos objetivos utilitaristas da maioria dos sistemas radicais; os conservadores resistem ao que Robert Graves chama de “Logicalismo” na sociedade. Esse preconceito tem sido chamado de “conservadorismo do prazer” – a sensação de que a vida vale a pena ser vivida, segundo Walter Bagehot, “a fonte adequada de um Conservadorismo animado”.

(3) Convicção de que a sociedade civilizada requer ordens e classes, em contraposição à noção de uma “sociedade sem classes”. Com razão, os conservadores têm sido frequentemente chamados de “o partido da ordem”. Se as distinções naturais entre os homens forem apagadas, os oligarcas preenchem o vácuo. A igualdade suprema no julgamento de Deus e a igualdade perante os tribunais são reconhecidas pelos conservadores; mas a igualdade de condição, pensam eles, significa igualdade na servidão e no tédio.

(4) A convicção de que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas: separe a propriedade da posse privada, e Leviatã se tornará senhor de tudo. O nivelamento econômico, sustentam, não é progresso econômico. (5) Fé na prescrição e desconfiança em relação a “sofistas, calculistas e economistas” que reconstruiriam a sociedade com base em projetos abstratos. O costume, a convenção e a antiga prescrição são freios tanto ao impulso anárquico do homem quanto à sede de poder do inovador.

(6) Reconhecimento de que a mudança pode não ser uma reforma salutar: a inovação precipitada pode ser uma conflagração devoradora, em vez de uma tocha de progresso. A sociedade deve mudar, pois a mudança prudente é o meio de preservação social; mas um estadista deve levar a Providência em seus cálculos, e a principal virtude de um estadista, segundo Platão e Burke, é a prudência.

Vários desvios desse conjunto de opiniões ocorreram, e há inúmeros apêndices a ele; mas, em geral, os conservadores aderiram a essas convicções ou sentimentos com certa consistência, por dois séculos. Catalogar os princípios de sua linha de pensamento é essencial. Encontrar oponentes é mais difícil. Pelo menos cinco grandes escolas de pensamento radical competiram pela preferência pública desde que Burke entrou para a política: o racionalismo dos filósofos, a emancipação romântica de Rousseau e seus aliados, o utilitarismo dos benthamitas, o positivismo da escola de Comte e o materialismo coletivista de Marx e outros socialistas. Essa lista deixa de fora as doutrinas científicas, principalmente o darwinismo, que tanto contribuíram para minar os princípios fundamentais de uma ordem conservadora. Expressar esses vários radicalismos em termos de um denominador comum provavelmente é presunçoso, estranho aos princípios filosóficos do conservadorismo. Mesmo assim, de forma apressada e generalizante, pode-se dizer que o radicalismo desde 1790 tendeu a atacar a organização prescritiva da sociedade pelos seguintes motivos:

(1) A perfectibilidade do homem e o progresso ilimitado da sociedade: o meliorismo. Os radicais acreditam que a educação, a legislação positiva e a alteração do meio ambiente podem produzir homens como deuses; eles negam que a humanidade tenha uma capacidade natural de induzir o progresso. (1) Propensão à violência e ao pecado.

(2) Apreciação pela variedade e mistério da existência humana, em oposição à uniformidade restritiva, ao igualitarismo e aos objetivos utilitaristas da maioria dos sistemas radicais; os conservadores resistem ao que Robert Graves chama de “Logicalismo” na sociedade. Esse preconceito tem sido chamado de “conservadorismo do prazer” – a convicção de que a vida vale a pena ser vivida, segundo Walter Bagehot, “a fonte adequada de um Conservadorismo vibrante”.

(3) Convicção de que a sociedade civilizada requer ordens e classes, em contraposição à noção de uma “sociedade sem classes”. Com razão, os conservadores têm sido frequentemente chamados de “o partido da ordem”. Se as distinções naturais entre os homens forem apagadas, os oligarcas preenchem o vácuo. A igualdade suprema perante Deus e a igualdade perante os tribunais são reconhecidas pelos conservadores; mas a igualdade de condição, pensam eles, significa igualdade na servidão e no tédio.

(4) Persuasão de que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas: separe a propriedade da posse privada, e Leviatã se torna senhor de tudo. A equalização econômica, sustentam eles, não é progresso econômico. (5) Fé em prescrições e desconfiança em relação a “sofistas, calculistas e economistas” que reconstruiriam a sociedade com base em projetos abstratos. O costume, a convenção e as antigas prescrições são freios tanto ao impulso anárquico do homem quanto à sede de poder do inovador.

(5) Fé na prescrição e desconfiança em relação a “sofistas, calculistas e economistas” que reconstruiriam a sociedade com base em projetos abstratos. O costume, a convenção e a antiga prescrição são freios tanto ao impulso anárquico do homem quanto à sede de poder do inovador.

(6) Reconhecimento de que a mudança pode não ser uma reforma salutar: a inovação precipitada pode ser uma conflagração devoradora, em vez de uma tocha de progresso. A sociedade precisa mudar, pois a mudança prudente é o meio de preservação social; mas um estadista deve levar a Providência em seus cálculos, e a principal virtude de um estadista, segundo Platão e Burke, é a prudência.

Vários desvios desse conjunto de opiniões ocorreram, e há inúmeros apêndices a ele; mas, em geral, os conservadores aderiram a essas convicções ou sentimentos com certa consistência, por dois séculos. Catalogar os princípios de seus oponentes é mais difícil. Pelo menos cinco grandes correntes de pensamento radical competiram pela preferência pública desde que Burke entrou para a política: o racionalismo dos filósofos, a emancipação romântica de Rousseau e seus aliados, o utilitarismo dos benthamitas, o positivismo da escola de Comte e o materialismo coletivista de Marx e outros socialistas. Essa lista deixa de fora as doutrinas científicas, principalmente o darwinismo, que tanto contribuíram para minar os princípios fundamentais de uma ordem conservadora. Expressar esses diversos radicalismos em termos de um denominador comum provavelmente seria presunçoso, algo alheio aos princípios filosóficos do conservadorismo. Mesmo assim, de forma apressada e generalizante, pode-se dizer que o radicalismo desde 1790 tendeu a atacar a organização prescritiva da sociedade pelos seguintes motivos.

(1) A perfectibilidade do homem e o progresso ilimitado da sociedade: o meliorismo. Os radicais acreditam que a educação, a legislação positiva e a alteração do ambiente podem produzir homens como deuses; negam que a humanidade tenha uma propensão natural à violência e ao pecado.

(2) Desprezo pela tradição. A razão, o impulso e o determinismo materialista são preferidos como guias para o bem-estar social, mais confiáveis ​​do que a sabedoria de nossos ancestrais. A religião formal é rejeitada e várias ideologias são apresentadas como substitutas.

(3) Nivelamento político. A ordem e o privilégio são condenados; a democracia total, tão direta quanto possível, é o ideal radical professado. Aliado a esse espírito, geralmente, está a aversão aos antigos arranjos parlamentares e o anseio pela centralização e consolidação.

(4) Nivelamento econômico. Os antigos direitos de propriedade, especialmente a propriedade da terra, são suspeitos para quase todos os radicais; e os reformadores coletivistas atacam a instituição da propriedade privada pela raiz.

Como quinto ponto, poderíamos tentar definir uma visão radical comum da função do Estado; mas aqui o abismo de opiniões entre as principais escolas de inovação é profundo demais para qualquer generalização satisfatória. Só podemos observar que os radicais se unem em detestar a descrição de Burke do Estado como ordenado por Deus, e seu conceito de sociedade como unida perpetuamente por um vínculo moral entre os mortos, os vivos e os que ainda vão nascer — a comunidade das almas.

(…)

Questões para reflexão

1. Kirk argumentou que o conservadorismo exige a crença em “uma ordem moral duradoura” fundamentada na “tradição, revelação divina ou lei natural”, mas a sociedade moderna rejeita cada vez mais quaisquer padrões universais, tratando a moralidade como uma construção cultural e subjetiva. A estrutura de Kirk pode fornecer uma alternativa coerente a esse relativismo, ou sua dependência de princípios transcendentes afasta os conservadores dos movimentos intelectuais seculares?

2. Kirk defendeu “uma disposição para preservar e uma capacidade de aprimorar, tomadas em conjunto”, argumentando que reformas repentinas produzem consequências não intencionais. No entanto, a aceleração tecnológica e a transformação social parecem exigir respostas políticas rápidas; o conservadorismo de Kirk oferece sabedoria prática para lidar com crises genuínas, ou aconselha passividade diante de uma disrupção tecnológica sem precedentes e de rápidas mudanças institucionais?

3. Kirk argumentou que “a sociedade requer ordens e classes que enfatizem distinções naturais”. Como os conservadores contemporâneos podem adotar o princípio da variedade natural de Kirk sem parecer defender injustiças genuínas ou se opor à expansão democrática legítima?

4. Kirk acreditava que “a necessidade humana de comunidade não é menos premente do que a necessidade de alimento ou abrigo” e que as comunidades requerem tomada de decisão local baseada no “acordo geral dos afetados”. Seu conceito de democracia territorial pode fornecer uma estrutura para lidar com o regionalismo contemporâneo, as divisões urbano-rurais e a perda de autoridade local para o poder burocrático centralizado?

5. Kirk argumentou que os libertários “não possuem autoridade, temporal ou espiritual” e não têm compromisso com “crenças e costumes ancestrais”, o que os coloca fundamentalmente em desacordo com o conservadorismo tradicional. A fusão do pensamento libertário e conservador, que Kirk rejeitou, provou-se instável e incapaz de resolver problemas políticos e sociais? Ela ainda é viável hoje?

6. Kirk criticou aqueles que desejam remodelar a sociedade de acordo com ideais abstratos, sem deferência à tradição ou consideração das consequências não intencionais. Os movimentos progressistas contemporâneos em prol da ideologia de gênero, da reinterpretação histórica e da transformação institucional exemplificam os perigos identificados por Kirk, ou sua estrutura descarta injustamente os esforços legítimos de reforma?

7. Kirk acreditava que “a imaginação moral é o poder da percepção ética que discerne e aspira à ação correta” e que a literatura imaginativa transmitia verdades que os tratados filosóficos não conseguiam. Será que a abordagem humanista de Kirk para a formação moral pode sobreviver em uma era de distribuição algorítmica de conteúdo e entretenimento voltado para o engajamento em vez da sabedoria?

8. Kirk mantinha uma posição intransigente de que o cristianismo e a civilização ocidental eram “inimagináveis ​​separados um do outro”. A secularização contemporânea justifica seu pessimismo em relação ao declínio cultural, ou a civilização secular provou ser mais resiliente do que Kirk previa?

9. Kirk incorporava sua filosofia em sua casa, onde ele e sua esposa praticavam a caridade cristã e a responsabilidade comunitária. Como a visão de Kirk sobre o conservadorismo vivido — fundamentado na fé religiosa, na estabilidade familiar, na participação na comunidade local e na hospitalidade — pode ser transmitida e praticada em uma sociedade móvel, digitalmente conectada e economicamente precária, onde as instituições tradicionais se enfraqueceram?

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