IV. A Escola de Frankfurt: Elitismo, vieses, racionalização da violência política, falácia do nirvana

A Escola de Frankfurt refere-se a um grupo de acadêmicos associados ao Instituto de Pesquisa Social, fundado em 1923 na Universidade Goethe em Frankfurt, Alemanha. Figuras-chave incluem Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse (primeira geração) e Jürgen Habermas (segunda geração). Desenvolveu uma abordagem interdisciplinar conhecida como Teoria Crítica, que visava criticar e transformar a sociedade analisando estruturas de poder, ideologia e cultura através de uma lente marxista, frequentemente incorporando insights da psicanálise, filosofia e sociologia. A escola foi influenciada pela ascensão do fascismo, capitalismo e mídia de massa, e seus membros eram, em sua maioria, intelectuais judeus que fugiram da Alemanha nazista na década de 1930, mudando-se temporariamente para os Estados Unidos antes de alguns retornarem à Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

Figura 22: Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Atrás à esquerda: Siegfried Landshut. Lateral direito (mão no cabelo): Jürgen Habermas.

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:AdornoHorkheimerHabermasbyJeremyJShapiro2.png

Principais Ideias sobre Política

As ideias políticas da Escola de Frankfurt centram-se na crítica às estruturas de dominação, autoritarismo e à erosão do pensamento crítico nas sociedades modernas. Eles viam a política não como algo isolado da economia ou da cultura, mas como algo interligado a elas, frequentemente levando à repressão e à falsa consciência.

Crítica do Autoritarismo e do Fascismo: Os primeiros trabalhos se concentraram em explicar a ascensão do nazismo e dos regimes autoritários. Em estudos como “A Personalidade Autoritária” (1950), Adorno e colaboradores identificaram traços psicológicos — como conformismo rígido, preconceito e submissão à autoridade — que tornam os indivíduos suscetíveis a ideologias fascistas. Eles os associaram a crises sociais, dinâmicas familiares e condições político-econômicas mais amplas, argumentando que as instabilidades do capitalismo fomentam a obediência e a dominação irracionais, em vez da emancipação racional.

Falhas Metodológicas, Viés de Esquerda
The Authoritarian Personality (1950), de autoria de Theodor Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford, é uma obra de psicologia social que buscou explicar as raízes psicológicas do fascismo e do preconceito, particularmente após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Introduziu a escala F (escala do Fascismo) para mensurar tendências autoritárias, relacionando-as a traços de personalidade moldados por uma educação rigorosa, como convencionalismo, submissão à autoridade, agressão a grupos externos e anti-intracepção (rejeição da subjetividade). O estudo argumentou que esses traços tornam os indivíduos suscetíveis a ideologias antidemocráticas. Embora influente, o estudo tem enfrentado críticas substanciais ao longo das décadas por motivos metodológicos, limitações teóricas, empíricas e ideológicas. Vamos nos ater aqui apenas as questões ideológicas.
A obra possui forte viés ideológico, enraizado nas inclinações marxistas dos autores (são esquerdistas radicais), cujas premissas:
a) patologizam visões de direita como transtornos mentais, ao tempo que induzem a ideia de saúde mental vinculada a valores esquerdistas (como se todo esquerdista fosse esquerdista moderado/democrático e se esquecendo dos esquerdistas radicais, como eles próprios, dos conservadores moderados e dos liberais clássicos, este últimos, os verdadeiros opositores aos fascismos e aos autoritarismos de uma forma geral);
b) atribuem ao capitalismo de livre mercado o caráter fascista (o que é desprovido de sentido histórico e lógico. No fascismo, o capitalista é controlado pelos interesses do Estado);
c) caracterizam equivocadamente o fascismo como um fenômeno de direita, o que nega os fatos históricos, como a conhecida migração de pessoas associadas a partidos socialistas para os partidos nazista alemão e fascista italiano, inclusive o próprio Mussolini, membro ativo do Partido Socialista Italiano, que com ele se desiludiu e fundou o Partido Fascista Nacional (veja o capítulo sobre Mussolini).
d) desconsideram um elemento básico do pensamento conservador que é o pensamento pragmático, não utópico. Apoio e voto no menos ruim, não no ideal (inexistente). Isto é, nas circunstâncias politicas a classe média conservadora apoiou o que lhes pareceu menos ruim, o que não significa que tenham se tornado fascistas, mas que era contra os comunistas.
e) caracterizam o preconceito aos judeus como um elemento central do fascismo, o que somente é verdade para o nazismo alemão, não para o fascismo italiano (que inspirou o alemão).
f) desconsidera que uma parte substancial da humanidade possui mentalidade autoritária e que, nos Estados Unidos, onde os estudos foram feitos, a classe média concentra a maioria da população (assim, foi fácil achar pessoas com mentalidade autoritária na classe média). Em países comunistas, a mentalidade autoritária continua presente, mas agora na classe proletária (e em suas lideranças, como revela a historia da URSS, da China e da Coreia do Norte, entre outras), dado que não existe classe média (toda a população foi empobrecida). Aliás, desconfio que qualquer pessoa que pregue ditadura do proletariado apresenta traços autoritários.
Como resultado, vinculam o potencial fascista (altos escores F) ao que denominam de pseudoconservadorismo (o pseudoconservador é caracterizado por professar valores tradicionais, mas abrigar secretamente impulsos subversivos e destrutivos, visando abolir as instituições que afirma defender). Ocorre que tal sujeito já é um protofascista (veja capítulo sobre Alfredo Rocco), um dos tipos de Estatista Radical e não um conservador moderado (não obstante sua mentalidade se aproximar bastante da do Conservador Autoritário, cabendo lembrar da fluidez da classificação e ausência de limites claros entre os tipos). O próprio Adorno reconhece que o conservadorismo que se correlaciona fortemente com o preconceito não é o conservadorismo tradicional, mas o pseudoconservadorismo.
Não lhe ocorreu, contudo, examinar a mentalidade radical da esquerda, sabidamente com preconceito contra os judeus. Historicamente, pode-se citar Fourier e Karl Marx (veja os capítulos respectivos), como exemplos de autores de esquerda com reconhecido preconceito contra os judeus. Ou o caso de Stalin, sistematicamente acusado de antissemitismo, fato que deveria ser do conhecimento de Adorno. Atualmente esse preconceito esquerdista é claramente manifesto no forte apoio da esquerda radical ao Hamas, grupo terrorista islâmico que prega a destruição do Estado de Israel e o extermínio dos judeus.
Por fim, vale mencionar o problema histórico do preconceito contra os judeus em toda a Europa e que envolve todos os autoritários, de direita e de esquerda, fato que deveria ser conhecido por Adorno.

A Indústria Cultural e a Manipulação de Massa: Horkheimer e Adorno, em Dialética do Esclarecimento (1947), argumentaram que a mídia de massa e a cultura popular (a “indústria cultural”) padronizam o pensamento e o comportamento, transformando os cidadãos em consumidores passivos. Isso serve a fins políticos, anestesiando as capacidades críticas, reforçando o conformismo e impedindo a resistência a sistemas opressores. Eles viam isso como uma extensão da racionalidade iluminista que deu errado, onde a razão instrumental domina, levando a uma “sociedade totalmente administrada”, com pouco espaço para uma agência política genuína.

Principais Falhas da Dialética do Esclarecimento
Dialética do Esclarecimento (1944/1947), escrito em coautoria por Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, é um texto fundamental da teoria crítica da Escola de Frankfurt. Escrito durante o exílio dos dois nos Estados Unidos em meio à Segunda Guerra Mundial, o livro argumenta que a promessa do Iluminismo de razão, progresso e libertação reverteu dialeticamente em mito, barbárie e dominação. Embora influente na filosofia, sociologia e estudos culturais, o livro enfrentou críticas significativas por sua metodologia, pressupostos teóricos e implicações.
Contradição Performativa e Crítica Autodestrutiva: Uma crítica central, notadamente de Habermas, é que Horkheimer e Adorno se envolvem em uma “contradição performativa” ao usar a argumentação racional para denunciar a própria razão como inerentemente dominadora e mítica. Isso mina os fundamentos racionais de suas próprias afirmações, criando uma aporia onde a crítica se torna impossível sem depender das próprias ferramentas que condenam.
Visão exagerada e totalizante da razão e do Iluminismo: Os autores são acusados ​​de pintar um quadro exagerado e indiferenciado do Iluminismo como algo que inevitavelmente leva à dominação, ignorando suas conquistas positivas na ciência, ética e arte.
Pessimismo excessivo e ausência de esperança: A perspectiva sombria do texto — de que o Iluminismo reverte ao mito e uma “terra totalmente iluminada irradia um desastre triunfante” — é vista como excessivamente determinista e niilista, não oferecendo um caminho viável a seguir.
Sem soluções ou alternativas práticas: Horkheimer e Adorno não oferecem alternativas concretas à dominação que diagnosticam, com a esperança relegada a um reconhecimento vago e messiânico de “falhas”, em vez de mudanças práticas.
Exagero Retórico e Falta de Nuance: O estilo aforístico e não argumentativo do livro — que acumula distorções para “acordar” os leitores — é criticado por espelhar a razão instrumental que ataca, potencialmente exagerando as alegações de efeito em vez de precisão.
Foco Restrito e Omissões: Alguns argumentam que ele enfatiza excessivamente a tecnologia e a razão instrumental, minimizando outros fatores, como a dinâmica econômica ou social. Também negligencia o “socialismo realmente existente” (por exemplo, o stalinismo) em sua crítica ao totalitarismo.
Elitismo: A crítica da indústria cultural como um engano de massa é elitista, descartando a cultura popular sem reconhecer seu valor.

Sociedade Unidimensional e Resistência: Marcuse, em Homem Unidimensional (1964), descreveu as sociedades industriais avançadas como “unidimensionais”, onde a oposição crítica é absorvida pelo sistema através do consumismo e da tecnologia. A política torna-se tecnocrática, reenquadrando as questões sociais como problemas de gestão. Ele defendeu uma “Grande Recusa” — rejeição radical por grupos marginalizados, estudantes e movimentos sociais — para desafiar isso, vislumbrando a libertação por meio de novas formas de moralidade, estética e sensualidade que transcendam a repressão capitalista.

Principais Críticas ao Homem Unidimensional
O livro “O Homem Unidimensional Homem Unidimensional – Estudos sobre a ideologia da sociedade industrial avançada“, de Herbert Marcuse, publicado em 1964, tem enfrentado críticas substanciais desde sua publicação, questionando tanto seus fundamentos teóricos quanto suas implicações práticas.
Falsa Equivalência entre Capitalismo e Totalitarismo: a representação de Marcuse das democracias capitalistas como “totalitárias” disfarçada de forma a minimizar regimes totalitários reais, como o comunismo soviético.
Imposição Elitista de Mudança: Marcuse prevê uma minoria radical (por exemplo, estudantes, intelectuais) impondo “libertação” a uma maioria passiva, ignorando os processos democráticos. Isso é visto como arrogante e perigoso, ecoando as vanguardas comunistas e levando à supressão irracional da dissidência. A obra descarta o contentamento da classe trabalhadora com o capitalismo como “falsa consciência”, ao mesmo tempo em que empodera elites não eleitas.
Rejeição da Natureza Humana e do Progresso: A visão de Marcuse das necessidades humanas como maleáveis ​​é criticada por negar as características humanas inerentes e os benefícios do avanço tecnológico. Ele ignora como o capitalismo efetivamente melhorou a vida das pessoas.
Pessimismo Exagerado e Falta de Evidências: As alegações de Marcuse sobre repressão sistêmica são exageradas e não são sustentadas, entre outros, pelo contraexemplo da história de liberdade de expressão e mobilidade dos Estados Unidos. Seu estilo abstrato e dialético serve mais como justificativa ideológica do que como análise da realidade.

Ação Comunicativa e a Esfera Pública: Habermas adotou uma visão mais otimista, enfatizando a “ação comunicativa” baseada no discurso racional e na compreensão mútua. Em “A Transformação Estrutural da Esfera Pública” (1962) e “A Teoria da Ação Comunicativa” (1981), ele criticou como a mídia de massa e a burocracia distorcem o debate público, transformando cidadãos ativos em espectadores. Ele propôs a democracia deliberativa — onde as pretensões de validade (verdade, correção, sinceridade) são testadas em situações ideais de discurso — como um caminho para a emancipação política, combatendo distorções ideológicas.

Falácia do Nirvana
A Falácia do Nirvana refere-se à rejeição de opções ou sistemas práticos e reais por não alcançarem um ideal inatingível de perfeição, resultando frequentemente em inação ou críticas intermináveis ​​sem alternativas construtivas. A Escola de Frankfurt, por meio de sua ênfase na dialética negativa e na crítica imanente, exemplifica isso ao examinar contradições sociais, como a promoção da razão instrumental pelo capitalismo, que leva à alienação e ao fascismo. Pensadores como Adorno evitavam propostas concretas, temendo que qualquer programa afirmativo pudesse ser cooptado pelos sistemas opressores aos quais se opunham, priorizando a exposição de falhas em detrimento de soluções viáveis.
Essa abordagem incorpora a Falácia do Nirvana, visto que a Escola destaca implacavelmente as imperfeições da sociedade existente — como a “indústria cultural” manipuladora — enquanto a compara implicitamente a um ideal emancipatório perfeito e inarticulado que permanece irrealizado. Isso leva à paralisia teórica em vez de à reforma prática.

No geral, seu pensamento político é pessimista em relação aos sistemas existentes, mas comprometido com a emancipação por meio da autorreflexão e da crítica, rejeitando tanto o capitalismo liberal (equivocadamente acusado de ser fascista) quanto o comunismo de estilo soviético como formas de dominação.

Citações-chave

Max Horkheimer e Theodor W. Adorno:Para o Iluminismo, tudo o que não se conforma ao padrão de calculabilidade e utilidade deve ser visto com desconfiança” (De “Dialética do Iluminismo“)

Herbert Marcuse: As pessoas se reconhecem em suas mercadorias; encontram sua alma em seu automóvel, aparelho de som, casa de dois andares, utensílios de cozinha. O próprio mecanismo que liga o indivíduo à sua sociedade mudou, e o controle social está ancorado nas novas necessidades que ele produziu.” (De “Homem Unidimensional”.)

Herbert Marcuse:Libertar a tolerância, então, significaria intolerância contra movimentos de direita e tolerância contra movimentos de esquerda.” (De “Tolerância Repressiva“)

Racionalização da violência política
Em seu ensaio de 1965, “Tolerância Repressiva“, Herbert Marcuse argumentou que a tolerância em sociedades industriais avançadas, particularmente sob o capitalismo, é inerentemente repressiva porque perpetua a opressão ao conceder plataformas iguais tanto para ideias libertadoras (de esquerda, vistas como progressistas) quanto para ideias opressivas (de direita, vistas como regressivas). Ele propôs a “tolerância libertadora”, que envolve intolerância ativa em relação a movimentos de direita, estendendo a tolerância apenas a forças subversivas e emancipatórias de esquerda. Isso poderia incluir ações extralegais, propaganda e até mesmo violência para alterar os equilíbrios de poder e impedir o domínio do que ele via como tendências fascistas inerentes às estruturas conservadoras ou capitalistas.
Marcuse justificou isso enquadrando as ideologias de direita como sinônimos de fascismo e nazismo, vendo-as como extensões da dominação histórica (por exemplo, a racionalidade iluminista degenerando em barbárie). Ele sustentava que a violência vinda de baixo — dos oprimidos contra os opressores — era redentora e necessária para a verdadeira libertação, distinguindo-a da violência sistêmica do status quo.
Um dos principais erros de sua análise, consequência dos seus vieses, é classificar o nazismo e o fascismo como de direita. Juntamente com sua visão binária falha — a esquerda como inerentemente boa e libertadora, a direita como má e fascista —, isso forneceu uma justificativa filosófica para táticas assimétricas, incluindo coerção e supressão, sem autorreflexão sobre quem realmente tem tendências fascistas e autoritárias.
Influências Históricas e Modernas na Violência da Esquerda Radical
As ideias de Marcuse moldaram profundamente a Nova Esquerda nas décadas de 1960 e 1970, inspirando movimentos violentos que tinham como alvo direitistas acusados ​​de serem fascistas. Como figura-chave na Escola de Frankfurt, ele influenciou grupos como o Students for a Democratic Society (SDS), que evoluiu para ocupações de prédios e confrontos, e o Weather Underground, um braço militante que realizou atentados contra símbolos do governo, justificando-os como resistência ao imperialismo “fascista” no Vietnã e ao racismo doméstico.
Figuras como Angela Davis (aluna de Marcuse e afiliada aos Panteras Negras) e Abbie Hoffman personificaram isso, defendendo a autodefesa armada e a disrupção como necessidades antifascistas.
Em contextos modernos, as teses de Marcuse sustentam grupos como a Antifa, que emprega ação direta — incluindo violência física, doxing (prática maliciosa de coletar e publicar informações privadas e de identificação de um indivíduo na internet sem o seu consentimento), assédio e danos materiais — contra conservadores, frequentemente rotulados como “nazistas” ou “fascistas”.
Por exemplo, durante os protestos de George Floyd em 2020 e os tumultos subsequentes, militantes da Antifa citaram uma lógica semelhante para racionalizar ataques à polícia e a aglomerações de direita como ataques preventivos contra o fascismo, ecoando o apelo de Marcuse à intolerância em relação às forças retrógradas (isto é, conservadores, que se opõem à sua visão de mundo).
Essa influência persiste no ativismo radical de esquerda, onde equiparar a direita a males históricos como o nazismo justifica a “violência redentora”, embora isso, na verdade, reflita as táticas totalitárias às quais Marcuse dizia se opor, levando a ciclos de escalada de violência.

Max Horkheimer: Uma teoria é crítica na medida em que busca libertar os seres humanos das circunstâncias que os escravizam.” (De “Teoria Tradicional e Crítica“).

Jürgen Habermas:A diferença entre terror político e crime comum fica clara durante a mudança de regime, na qual ex-terroristas se tornam representantes respeitados de seu país.” (De “Philosophy in a Time of Terror: Dialogues with Habermas and Derrida“)

Classificação dos Principais Autores da Escola de Frankfurt no Diagrama Circular

Max Horkheimer

  • Grupo Principal: Esquerdistas Radicais
  • Justificativa: Como diretor fundador da Escola de Frankfurt, o trabalho de Horkheimer (por exemplo, coautor de Dialética do Esclarecimento) defende a transformação radical da sociedade por meio da crítica ao capitalismo e à racionalidade iluminista, alinhando-se ao foco dos Esquerdistas Radicais na mudança revolucionária, no anticapitalismo e na reestruturação social fundamental. Suas raízes marxistas e sua ênfase na emancipação por meio da teoria crítica se encaixam no ethos revolucionário desse grupo, embora ele compartilhe alguma proximidade com os Esquerdistas Democratas na oposição à violência direta.

Theodor Adorno

  • Grupo Principal: Esquerdistas Radicais
  • Justificativa: As críticas de Adorno à indústria cultural, ao autoritarismo (A Personalidade Autoritária) e à sociedade de massas em Dialética do Esclarecimento refletem uma profunda postura anticapitalista que clama por uma profunda reforma social. Isso corresponde às características dos esquerdistas radicais de desafiar os sistemas estabelecidos por meio da revolução intelectual e se opor ao livre mercado, com sobreposições aos estatistas radicais na análise de tendências totalitárias, mas, em última análise, rejeitando-as.

Herbert Marcuse

  • Grupo principal: Esquerdistas radicais
  • Justificativa: O Homem Unidimensional de Marcuse critica a integração da oposição no capitalismo avançado, defendendo uma “Grande Recusa” e a libertação radical. Sua influência na Nova Esquerda e sua ênfase no potencial revolucionário em grupos marginalizados alinham-se aos meios revolucionários dos esquerdistas radicais, ao anticapitalismo e à transformação coletivista, sendo adjacentes aos esquerdistas democratas no apoio a alguns elementos democráticos, mas mais extremos na rejeição do sistema em geral.

Jürgen Habermas

  • Grupo principal: Esquerdistas democratas
  • Justificativa: Como pensador de segunda geração, Habermas se desloca em direção a ideais reformistas em A Transformação Estrutural da Esfera Pública e A Teoria da Ação Comunicativa, enfatizando a democracia deliberativa, o discurso racional e a justiça social por meio da mudança institucional em vez da revolução. Isso se encaixa nos valores dos Esquerdistas Democratas de redistribuição, igualdade econômica e governança democrática por meio de reformas, com proximidade aos Liberais Clássicos na valorização das liberdades individuais e do debate público, mas enraizados na crítica esquerdista às desigualdades sistêmicas.

No arranjo circular, as colocações dos autores da primeira geração em Esquerdistas Radicais destacam sua proximidade com os Esquerdistas Democratas (oposição compartilhada ao livre mercado e foco na igualdade) e Estatistas Radicais (análise da dominação), mas sua oposição central é a grupos como Conservadores Moderados (tradição) e Liberais Clássicos.

A Aristocracia Intelectual Marxista
Há outra contradição fundamental na teoria crítica contemporânea: embora reivindique objetivos democráticos, na prática defende uma forma de aristocracia intelectual baseada em conhecimento teórico especializado.
O Problema da Autoridade Intelectual
Os teóricos de Frankfurt enfrentam o que poderia ser chamado de “paradoxo paternalista”: eles afirmam conhecer os “verdadeiros interesses” dos trabalhadores melhor do que eles próprios. Como observado sobre Marcuse, ele questionou “quem está qualificado para fazer todas essas distinções” entre necessidades verdadeiras e falsas, respondendo que seriam aqueles “na maturidade de suas faculdades” — essencialmente, ele e seus aliados intelectuais. Essa posição exemplifica o que os críticos identificam como a arrogância intelectual característica das elites acadêmicas. A teoria crítica pressupõe que as pessoas comuns sofrem de “falsa consciência” e precisam de esclarecimento intelectual para reconhecer sua própria opressão.
A Aristocracia Acadêmica Contemporânea
A academia moderna opera efetivamente como uma “aristocracia silenciosa” onde “acesso e autoridade estão interligados” e “o controle intelectual lentamente dá lugar a novas vozes”. Intelectuais marxistas se posicionam como uma vanguarda esclarecida capaz de diagnosticar a “falsa consciência” das massas, assumindo uma autoridade epistêmica superior. No entanto, esses grupos servem aos seus próprios interesses enquanto se apresentam como defensores dos trabalhadores.
O Paradoxo Democrático da Teoria Crítica
Teóricos críticos enfrentam uma contradição insolúvel: defendem a democracia enquanto rejeitam sistematicamente escolhas democráticas reais quando estas não se alinham com suas prescrições teóricas. Essa posição revela que sua verdadeira defesa é a de uma “aristocracia de críticos” que determina o que constitui a consciência autêntica versus a falsa.

Conclusão

Embora as premissas da primeira geração da Escola de Frankfurt fossem falaciosas e os resultados ainda piores, elas permanecem influentes nos círculos acadêmicos da esquerda radical. A segunda geração, Habermas, igualmente influente nos círculos acadêmicos, evoluiu para visões de esquerda mais moderadas (embora mantendo alguns elementos utópicos).

Questões para reflexão

1. Quais falhas metodológicas os filósofos acadêmicos identificaram na abordagem crítica da Escola de Frankfurt?

2. Como a teoria da “falsa consciência” da Escola de Frankfurt exemplifica uma forma de paternalismo intelectual, em que os teóricos acadêmicos assumem a autoridade para determinar quais necessidades e desejos das massas são “autênticos” ou “manipulados”?

3. Como a acusação de elitismo intelectual contra a primeira geração da Escola de Frankfurt se relaciona com seu distanciamento das experiências das massas populares?

4. De que maneiras os críticos argumentam que a crítica de Theodor Adorno à cultura de massa demonstra um desdém elitista pelos gostos populares e pela autonomia das pessoas comuns?

5. Em que medida o pessimismo cultural da primeira geração da Escola de Frankfurt quanto à capacidade das massas de reconhecer sua própria falta de liberdade justifica uma nova forma de autoritarismo intelectual disfarçada de teoria crítica?

6. Se uma opção não atende aos padrões de calculabilidade e utilidade, ela ainda é válida em uma democracia? E se você rejeitar uma alternativa que é mais útil para você, mas ofende seus padrões morais, você está agindo ilegalmente em uma democracia? Ou você, usando seu livre arbítrio, pode escolher?

7. Quem tem o direito de criticar suas escolhas de consumo? Se você não concordar com o crítico, isso te torna um alienado?

8. Se você justifica a violência contra inimigos políticos que você apresenta erroneamente como fascistas, não é você um fascista?

9. O quadro abaixo mostra um enorme viés de esquerda entre professores e jornalistas.

Professores Universitários
Estudos sobre as filiações políticas de professores universitários e de faculdades dos EUA mostram consistentemente um desequilíbrio significativo, com os democratas superando em muito os republicanos. As porcentagens exatas variam de acordo com o estudo, o tipo de instituição, a área e a metodologia (por exemplo, autoidentificação versus registro partidário), mas as proporções geralmente variam de 5:1 a 12:1 entre democratas e republicanos em geral, com desequilíbrios maiores em humanidades e ciências sociais (por exemplo, até 12:1 em humanidades). Uma pesquisa nacional com docentes constatou que 50% se identificam como democratas e 11% como republicanos (com 33% independentes e 5% outros). Análises mais recentes sobre o registro partidário em faculdades de artes liberais de elite mostram proporções em torno de 10:1 entre docentes registrados, o que se traduz em aproximadamente 55% de democratas e 5% de republicanos em geral (com o restante independente, não registrado ou outros). (https://www.washingtontimes.com/news/2018/apr/26/democratic-professors-outnumber-republicans-10-to-/).
Jornalistas
A pesquisa nacional mais recente com jornalistas dos EUA (de 2022) constatou que 36% se identificam como democratas, enquanto apenas 3,4% se identificam como republicanos (com 51,7% independentes e o restante outros). Isso representa um declínio contínuo na identificação com o Partido Republicano, abaixo dos 7,1% em 2013 e dos 18% em 2002 (https://www.washingtontimes.com/news/2023/dec/30/only-34-us-journalists-are-republicans-survey/).

Esse padrão se reflete na cobertura a favor ou contra candidatos republicanos e democratas.

Cobertura Recente Durante a Presidência de Trump em 2025
Análises das principais emissoras de TV (ABC, CBS, NBC) durante os primeiros 100 dias do segundo mandato de Trump em 2025 encontraram uma cobertura predominantemente negativa. Um estudo relatou 92% de avaliações negativas das ações e declarações de Trump, com apenas 8% de avaliações positivas (https://abc3340.com/news/nation-world/major-networks-92-negative-coverage-of-president-trump).
Cobertura da Campanha Eleitoral de 2024
Durante a corrida presidencial de 2024, a cobertura dos noticiários noturnos das emissoras (ABC, CBS, NBC) foi altamente desequilibrada (https://x.com/SecretsBedard/status/1850916790131376261)
Trump: 85% negativo, 15% positivo.
Harris: 78% positivo, 22% negativo.

9.1. O problema é a falsa consciência da classe trabalhadora ou a recusa dos intelectuais de esquerda em aceitar que suas propostas e candidatos são, de fato, ruins?

9.2. O que devemos pensar de alguém que perde uma eleição e, em vez de tentar entender seus fracassos, volta a difamar aqueles que votaram contra ele (um bando de deploráveis, fascistas, alienados, nazistas, etc.)?

9.3. Utilizar as universidades e faculdades para fazer uma pesquisa enviesada acusando os americanos conservadores de fascistas ou publicar um livro afirmando a decadência da democracia em face da eleição de alguém que você não gosta é um bom caminho? É um caminho aceitável? É ciência séria?

10. Se os autores da escola de Frankfurt eram antifascistas por princípio, o que justifica terem se apropriado e defendido técnicas fascistas para atacar os conservadores (ou essa briga não passava de uma briga de irmãos gêmeos)?

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