V. Capitalismo e liberdade, segundo Milton Friedman (1912-2006)

Ideias Principais

Milton Friedman (1912–2006) foi um proeminente economista americano e ganhador do Prêmio Nobel (1976), conhecido por sua defesa do capitalismo de livre mercado, da intervenção governamental limitada e da escola de pensamento chamada monetarismo.

Figura 33: Milton Friedman.

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Portrait_Of_Milton_Friedman_(cropped).jpg

Suas ideias enfatizavam que a liberdade individual e a eficiência econômica são melhor alcançadas por meio de trocas voluntárias em mercados competitivos, em vez de planejamento central ou regulamentação extensiva. Abaixo estão alguns de seus principais conceitos:

Monetarismo e Política Monetária: Friedman argumentou que a inflação é principalmente um fenômeno monetário causado pelo crescimento excessivo da oferta de moeda, e os bancos centrais deveriam se concentrar em aumentos constantes e previsíveis da moeda para estabilizar a economia. en.wikipedia.org Ele criticou as políticas fiscais keynesianas (gastos governamentais e impostos para gerenciar a demanda) como ineficazes a longo prazo, defendendo, em vez disso, o controle monetário baseado em regras para prevenir recessões e inflação. hoover.org Por exemplo, ele vinculou a Grande Depressão a uma contração da oferta de moeda pelo Federal Reserve.

Livre Mercado e Governo Limitado: Ele acreditava que o capitalismo competitivo aloca recursos de forma eficiente e promove a inovação, enquanto o envolvimento excessivo do governo distorce os mercados e corrói as liberdades individuais. edchoice.org Friedman apoiou políticas como livre comércio, redução de impostos sobre a renda e o capital, desregulamentação e privatização para reduzir a pegada econômica do governo. fraserinstitute.org +1 Ele se opôs a intervenções como controle de preços, salários mínimos (em alguns contextos) e licenciamento obrigatório para profissões como a médica, argumentando que elas criam monopólios e limitam oportunidades.

Liberdade Econômica como Base para a Liberdade Política: Friedman postulou que a liberdade econômica — por meio da propriedade privada e das trocas de mercado — protege contra o poder político coercitivo. freedomandcitizenship.columbia.edu Ele alertou que o controle econômico concentrado (por exemplo, via socialismo) leva ao controle político concentrado, sufocando a dissidência e os direitos individuais.

Propostas Políticas Inovadoras: Entre suas ideias práticas estavam um imposto de renda negativo (um precursor dos modernos créditos fiscais de renda auferidos, fornecendo dinheiro a indivíduos de baixa renda para aliviar a pobreza sem burocracia), vouchers escolares (ebsco.com) para dar aos pais opções na educação e promover a competição entre as escolas, um exército de voluntários em vez de recrutamento obrigatório e taxas de câmbio flutuantes para moedas internacionais (econlib.org). Essas ideias visavam empoderar os indivíduos e, ao mesmo tempo, minimizar a distorção governamental.

A influência de Friedman atingiu o auge na década de 1980, moldando políticas sob líderes como Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

A Oposição de Milton Friedman ao ESG
Milton Friedman é frequentemente citado como um crítico de conceitos como investimentos ambientais, sociais e de governança (ESG) e práticas corporativas. Sua oposição decorre principalmente de seu ensaio de 1970 no New York Times, “A Responsabilidade Social das Empresas É Aumentar Seus Lucros“, onde argumentava que o principal dever dos executivos corporativos é maximizar o valor para os acionistas dentro dos limites da lei e das normas éticas.
Friedman via qualquer desvio disso — como a busca por objetivos sociais ou ambientais mais amplos — como um mau uso dos recursos corporativos e uma ameaça ao capitalismo de livre mercado. Essa postura desafia diretamente o ESG, que incentiva as empresas a integrar fatores ambientais (por exemplo, ação climática), sociais (por exemplo, diversidade e direitos trabalhistas) e de governança (por exemplo, práticas éticas do conselho) na tomada de decisões, muitas vezes além da estrita motivação pelo lucro.
Ele argumentou que as empresas não são agentes morais com “responsabilidades” como os indivíduos; em vez disso, os executivos são agentes dos acionistas e devem priorizar a maximização do lucro.
Os principais pontos incluem:
Lucro como Único Objetivo Legítimo: Friedman declarou, em sua famosa declaração, que executivos que gastam o dinheiro da empresa em causas sociais (por exemplo, reduzir a poluição além dos requisitos legais ou promover o bem-estar da comunidade) estão, na prática, impondo um “imposto” aos acionistas, funcionários ou clientes sem o seu consentimento.
Ele argumentou: “O papel do executivo corporativo é ganhar o máximo de dinheiro possível, respeitando as regras básicas da sociedade.” No contexto ESG, isso significa opor-se a iniciativas como reduções voluntárias de carbono ou cotas de diversidade, a menos que elas demonstrem aumentar os lucros a longo prazo — caso contrário, representam uma redistribuição não autorizada de recursos.
Enfraquecendo a Democracia e o Livre Mercado: Friedman alertou que permitir que executivos busquem objetivos sociais os transforma em formuladores de políticas não eleitos, confundindo os limites entre empresas e governo. Isso se alinha com sua crítica mais ampla ao coletivismo: práticas ESG, ao priorizar stakeholders como o meio ambiente ou as comunidades em detrimento dos acionistas, podem expandir papéis semelhantes aos de governos para as corporações, potencialmente convidando a mais regulamentação e corroendo as trocas voluntárias de mercado. Ele enfatizou que “não existe almoço grátis” — ações sociais impõem custos que devem ser administrados por meio de processos políticos, não por discrição corporativa.
Problemas de Agência e Supervisão: Um mandato focado no lucro simplifica o monitoramento dos executivos pelos acionistas, reduzindo os “custos de agência”, onde os gestores podem perseguir agendas pessoais sob o pretexto de bem-estar social. O ESG, com suas métricas multifacetadas, complica isso, potencialmente permitindo que os executivos justifiquem o baixo desempenho citando metas não financeiras. Friedman reconheceu que as empresas devem cumprir as leis e os costumes éticos, e ações que beneficiem a sociedade (por exemplo, investimentos comunitários) são permitidas se aumentarem os lucros. No entanto, ele se opôs a rotulá-las como “responsabilidade social” para evitar hipocrisia.
Nuances e Mal-entendidos Comuns: A posição de Friedman é frequentemente caricaturada como endossando a busca antiética pelo lucro a todo custo, mas isso ignora qualificações essenciais. Por exemplo, ele exigiu explicitamente a adesão aos “costumes éticos” e à “concorrência aberta e livre, sem engano ou fraude”. Ações ilegais ou antiéticas (por exemplo, violações de privacidade ou danos ambientais) prejudicariam a reputação e os lucros, tornando-as incompatíveis com sua doutrina.
Sobreposição com os interesses dos stakeholders: Friedman reconheceu que ações que maximizam o lucro frequentemente se alinham a benefícios mais amplos (por exemplo, atrair talentos por meio de comodidades), demonstrando que suas visões não são estritamente antitéticas às considerações dos stakeholders, mas priorizam a primazia dos acionistas. Essas nuances destacam que a oposição de Friedman não é ao bem social em si, mas aos executivos que o fazem às custas dos acionistas

Capitalismo e Liberdade

Capitalismo e Liberdade” (1962) é a obra seminal de Friedman, que argumenta que o capitalismo competitivo é essencial para a preservação da liberdade política e que a intervenção governamental frequentemente mina ambos. Escrito durante a Guerra Fria, o livro critica o socialismo e os Estados de bem-estar social excessivos, ao mesmo tempo em que defende papéis governamentais mínimos em uma sociedade livre.

O livro, inspirado em palestras na Universidade de Chicago, combina teoria econômica com prescrições políticas para mostrar como o livre mercado descentraliza o poder e protege as liberdades individuais. Aqui está uma visão geral de seus principais argumentos:

Introdução e A Relação entre Liberdade Econômica e Liberdade Política: Friedman afirma que a liberdade econômica (via capitalismo) é um pré-requisito para a liberdade política, pois separa o poder econômico da autoridade política, permitindo que os mercados contrabalancem a coerção governamental. supersummary.com +1 Ele alerta que os sistemas coletivistas concentram poder, ameaçando a liberdade.

O Papel do Governo em uma Sociedade Livre: O governo deve se limitar a fazer cumprir contratos, proteger os direitos de propriedade, manter a defesa nacional e resolver externalidades (como a poluição), mas não a intervenções paternalistas que restrinjam a escolha. univ.ox.ac.uk Friedman enfatiza que a cooperação voluntária nos mercados alcança melhores resultados do que programas governamentais obrigatórios.

O Controle da Moeda: Ecoando suas visões monetaristas, ele critica as políticas discricionárias do Federal Reserve e propõe uma regra para o crescimento constante da oferta de moeda (por exemplo, 3-5% ao ano) para evitar inflação e depressões. coursehero.com

Acordos Financeiros e Comerciais Internacionais: Defende taxas de câmbio flutuantes e livre comércio, opondo-se a taxas e tarifas fixas que distorcem os mercados globais.

Política Fiscal: Friedman argumenta contra o uso de gastos e déficits governamentais para estabilização econômica, pois levam à ineficiência e à inflação; em vez disso, concentre-se em orçamentos equilibrados e impostos baixos.

O Papel do Governo na Educação: Propõe vales-escola para financiar a educação por meio da escolha dos pais, em vez de monopólios públicos, promovendo a competição e a eficiência, ao mesmo tempo em que combate a desigualdade. coursehero.com

Capitalismo e Discriminação: Os mercados reduzem a discriminação porque a motivação do lucro privilegia o mérito em detrimento do preconceito; intervenções governamentais (como salários mínimos) podem exacerbá-la, limitando as oportunidades para as minorias.

Monopólio e a Responsabilidade Social das Empresas e do Trabalho: Critica os monopólios (incluindo sindicatos) e argumenta que as empresas devem maximizar os lucros dentro de regras éticas, e não perseguir vagas “responsabilidades sociais”.

Licenciamento Ocupacional: Opõe-se ao licenciamento obrigatório para profissões liberais, pois cria barreiras à entrada e protege os titulares em detrimento dos consumidores.

Distribuição de Renda: Introduz o imposto de renda negativo como forma de garantir uma renda mínima sem desestimular o trabalho, substituindo programas de assistência social fragmentados.

Medidas de Bem-Estar Social e Alívio da Pobreza: Apela à reforma do bem-estar social para incentivar a autossuficiência, criticando os sistemas existentes por criarem dependência.

Conclusão: Reitera que uma sociedade livre requer liberdade econômica, e reformas graduais em direção ao capitalismo podem aumentar tanto a prosperidade quanto a liberdade.

De modo geral, o livro alerta contra o Estado “paternalista” e promove o individualismo, observando que “quanto mais livre o mercado, mais livres as pessoas”.

Citações-chave

Sobre o Governo e o Mercado:

O governo não tem dinheiro. O único poder que tem é tirar de alguns e dar a outros.

Nada é tão permanente quanto um programa governamental temporário.

Muitas pessoas querem que o governo proteja o consumidor. Um problema muito mais urgente é proteger o consumidor do governo.”

Não existe almoço grátis.”

Sou a favor de cortar impostos em qualquer circunstância e por qualquer motivo, por qualquer motivo, sempre que possível.”

Sobre o Livre Mercado e a Liberdade:

A grande virtude de um sistema de livre mercado é que ele não se importa com a cor das pessoas; não se importa com a religião delas; só se importa se elas podem produzir algo que você deseja comprar. É o sistema mais eficaz que descobrimos para permitir que pessoas que se odeiam lidem umas com as outras e se ajudem.

Uma sociedade que prioriza a igualdade em vez da liberdade não terá nenhuma das duas coisas. Uma sociedade que prioriza a liberdade em vez da igualdade terá um alto grau de ambas.”

Subjacente à maioria dos argumentos contra o livre mercado está a falta de crença na própria liberdade.

Sobre Inflação e Política Monetária:

A inflação é a única forma de tributação que pode ser imposta sem legislação.

A inflação é sempre e em todos os lugares um fenômeno monetário.”

Sobre Gastos e Incentivos:

Quando um homem gasta seu próprio dinheiro para comprar algo para si mesmo, ele é muito cuidadoso com o quanto gasta e como o gasta. Quando um homem gasta seu próprio dinheiro para comprar algo para outra pessoa, ele ainda é muito cuidadoso com o quanto gasta, mas um pouco menos com o que gasta. Quando um homem gasta o dinheiro de outra pessoa para comprar algo para si mesmo, ele é muito cuidadoso com o que compra, mas não se importa nem um pouco com o quanto gasta. E quando um homem gasta o dinheiro de outra pessoa com outra pessoa, ele não se importa com o quanto gasta ou com o que gasta. E isso é governo para você.

Se você paga as pessoas para não trabalharem e as tributa quando o fazem, não se surpreenda se tiver desemprego.

Sobre Avaliação de Políticas:

Um dos grandes erros é julgar políticas e programas por suas intenções e não por seus resultados.

Se você colocar o governo federal no comando do Deserto do Saara, em cinco anos haverá escassez de areia.”

A Relevância Perene de Milton Friedman

Milton Friedman continua sendo uma figura central no discurso econômico e político contemporâneo. Quase duas décadas após sua morte, suas ideias continuam a influenciar formuladores de políticas, pensadores e debates públicos sobre inflação, educação, intervenção governamental e liberdade individual.

A defesa de Friedman pelo livre mercado como um caminho para tirar as pessoas da pobreza continua a inspirar pensadores libertários e conservadores. Sua proposta de vales-escola para promover a escolha e a competição na educação é particularmente relevante, à medida que os debates sobre a escolha escolar se intensificam. Suas ideias sobre a substituição do bem-estar social por um imposto de renda negativo para reduzir a burocracia e a dependência influenciam as discussões modernas sobre a renda básica universal.

A influência de Milton Friedman nas ideias de Paulo Guedes
Paulo Guedes (1949-) é um economista brasileiro, cofundador do banco de investimentos BTG Pactual e ex-ministro da Economia do presidente Jair Bolsonaro (2019-2022). A influência direta de Friedman sobre Guedes é profunda, decorrente da formação de Guedes na Universidade de Chicago, onde Friedman lhe ensinou macroeconomia e incutiu princípios neoliberais. Como Ministro da Economia (2019-2022), Guedes traduziu as ideias de Friedman em políticas públicas em meio à crise fiscal brasileira:
Reforma da Previdência (2019): Uma conquista emblemática, reformulou o sistema insustentável do Brasil para conter os déficits, baseando-se nas críticas de Friedman à ineficiência do bem-estar social e da seguridade social como armadilhas para a pobreza. Guedes negociou com políticos para aprová-la, melhorando a sustentabilidade fiscal em linha com a ênfase de Friedman em orçamentos equilibrados.
Campanha de Privatização: Guedes acelerou a venda de ativos estatais (por exemplo, a maior empresa de energia renovável da América Latina), ecoando a postura antimonopólio de Friedman e o sucesso do modelo chileno sob Pinochet (que Friedman influenciou indiretamente). Isso visava reduzir a dívida e fomentar a iniciativa privada, aplicando diretamente os princípios de livre mercado de Friedman.
Políticas Fiscais e Tributárias: Propostas de simplificação tributária e tetos de gastos refletiam a defesa de Friedman por impostos baixos e disciplina monetária para combater a inflação. Os alertas de Guedes sobre a estagflação global e a pressão por juros mais altos sobre empréstimos estatais personificam o monetarismo.
Agenda Econômica Mais Ampla: A equipe de Guedes, incluindo outros ex-alunos de Chicago, buscou a desregulamentação e a abertura comercial, frequentemente chamada de “Momento Brasil de Milton Friedman”. No entanto, obstáculos políticos (por exemplo, das prioridades de gastos de Bolsonaro) diluíram algumas reformas, forçando concessões como o estímulo à COVID, que Guedes via como desvios temporários.
No geral, a orientação de Friedman transformou Guedes em um defensor neoliberal, possibilitando políticas que levaram o Brasil a um crescimento impulsionado pelo mercado, embora adaptadas às realidades locais e não totalmente concretizadas devido a restrições políticas.

Textos selecionados

Milton Friedman com a assistência de Rose D. Friedman. Capitalismo e Liberdade. The University of Chicago Press, Chicago, 1962.

Introdução

Em um trecho muito citado de seu discurso de posse, o Presidente Kennedy disse: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”. É um sinal marcante do temperamento de nossos tempos que a controvérsia em torno desse trecho tenha se centrado em sua origem e não em seu conteúdo. Nenhuma das duas metades da declaração expressa uma relação entre o cidadão e seu governo que seja digna dos ideais de homens livres em uma sociedade livre. O paternalista “o que seu país pode fazer por você” implica que o governo é o patrono, o cidadão, o tutelado, uma visão que está em desacordo com a crença do homem livre em sua própria responsabilidade por seu próprio destino. O organicista “o que você pode fazer por seu país” implica que o governo é o mestre ou a divindade, o cidadão, o servo ou o devoto. Para o homem livre, o país é o conjunto de indivíduos que o compõem, não algo acima e acima deles. Ele se orgulha de uma herança comum e é leal às tradições comuns. Mas ele considera o governo um meio, uma instrumentalidade, não um concedente de favores e presentes, nem um mestre. ou deus para ser cegamente adorado e servido. Ele não reconhece nenhum objetivo nacional, exceto como o consenso dos objetivos aos quais os cidadãos individualmente servem. Ele não reconhece nenhum propósito nacional, exceto como o consenso dos propósitos pelos quais os cidadãos individualmente se esforçam.

O homem livre não perguntará o que seu país pode fazer por ele, nem o que ele pode fazer por seu país. Ele perguntará, em vez disso, “O que eu e meus compatriotas podemos fazer por meio do governo” para nos ajudar a cumprir nossas responsabilidades individuais, alcançar nossos diversos objetivos e propósitos e, acima de tudo, proteger nossa liberdade? E ele acompanhará essa pergunta com outra: Como podemos impedir que o governo que criamos se torne um Frankenstein que destruirá a própria liberdade que o estabelecemos para proteger? A liberdade é uma planta rara e delicada. Nossas mentes nos dizem, e a história confirma, que a grande ameaça à liberdade é a concentração de poder. O governo é necessário para preservar nossa liberdade, é um instrumento por meio do qual podemos exercer nossa liberdade; no entanto, ao concentrar o poder em mãos políticas, também é uma ameaça à liberdade. Mesmo que os homens que exercem esse poder inicialmente sejam de boa vontade e mesmo que não sejam Corrompidos pelo poder que exercem, o poder atrairá e formará homens de uma espécie diferente.

Como podemos nos beneficiar da promessa do governo e, ao mesmo tempo, evitar a ameaça à liberdade? Dois princípios amplos consagrados em nossa Constituição oferecem uma resposta que preservou nossa liberdade até agora, embora tenham sido violados repetidamente na prática enquanto proclamados como preceito.

Primeiro, o escopo do governo deve ser limitado. Sua principal função deve ser proteger nossa liberdade tanto dos inimigos fora de nossos portões quanto de nossos concidadãos: preservar a lei e a ordem, fazer cumprir contratos privados e promover mercados competitivos. Além dessa função principal, o governo pode, às vezes, nos permitir realizar em conjunto o que acharíamos mais difícil ou custoso realizar individualmente. No entanto, qualquer uso desse tipo de governo está repleto de perigos. Não devemos e não podemos evitar usar o governo dessa maneira. Mas deve haver um equilíbrio claro e amplo de vantagens antes de fazê-lo. Ao confiar principalmente na cooperação voluntária e na iniciativa privada, tanto em atividades econômicas quanto em outras, podemos garantir que o setor privado seja um freio aos poderes do setor governamental e uma proteção eficaz da liberdade de expressão. discurso, da religião e do pensamento.

O segundo princípio amplo é que o poder governamental deve ser disperso. Se o governo deve exercer poder, melhor no condado do que no estado, melhor no estado do que em Washington. Se eu não gostar do que minha comunidade local faz, seja em relação ao descarte de esgoto, zoneamento ou escolas, posso me mudar para outra comunidade local e, embora poucos tomem essa atitude, a mera possibilidade funciona como um freio. Se eu não gostar do que meu estado faz, posso me mudar para outro. Se eu não gostar do que Washington impõe, tenho poucas alternativas neste mundo de nações invejosas.

(…)

Capítulo I. A Relação entre Liberdade Econômica e Liberdade Política

É amplamente aceito que política e economia são distintas e em grande parte desconexas; que a liberdade individual é um problema político e o bem-estar material, um problema econômico; e que qualquer tipo de arranjo político pode ser combinado com qualquer tipo de arranjo econômico. A principal manifestação contemporânea dessa ideia é a defesa do “socialismo democrático” por muitos que condenam liminarmente as restrições à liberdade individual impostas pelo “socialismo totalitário” na Rússia e que estão convencidos de que é possível para um país adotar as características essenciais dos arranjos econômicos russos e, ainda assim, garantir a liberdade individual por meio de arranjos políticos. A tese deste capítulo é que tal visão é uma ilusão, que existe uma conexão íntima entre economia e política, que apenas certas combinações de arranjos políticos e econômicos são possíveis e que, em particular, uma sociedade socialista não pode ser também democrática, no sentido de garantir a liberdade individual.

Os arranjos econômicos desempenham um papel duplo na promoção de uma sociedade livre. Por um lado, a liberdade nos arranjos econômicos é, em si mesma, um componente da liberdade amplamente compreendida, portanto, a liberdade econômica é um fim em si mesma. Em segundo lugar, a liberdade econômica também é um meio indispensável para a conquista da liberdade política.

(…)

Vistos como um meio para atingir o fim da liberdade política, os arranjos econômicos são importantes devido ao seu efeito na concentração ou dispersão do poder. O tipo de organização econômica que proporciona liberdade econômica diretamente, ou seja, o capitalismo competitivo, também promove a liberdade política, porque separa o poder econômico do poder político e, dessa forma, permite que um compense o outro.

A evidência histórica fala a uma só voz sobre a relação entre liberdade política e livre mercado. Não conheço nenhum exemplo, em tempo ou lugar, de uma sociedade que tenha sido marcada por uma grande medida de liberdade política e que também não tenha usado algo comparável ao livre mercado para organizar a maior parte da atividade econômica.

Como vivemos em uma sociedade amplamente livre, tendemos a esquecer quão limitado é o período de tempo e a parte do globo para a qual já existiu algo parecido com liberdade política: o estado típico da humanidade é a tirania, a servidão e a miséria. O século XIX e o início do século XX no mundo ocidental destacam-se como exceções marcantes à tendência geral do desenvolvimento histórico. A liberdade política, neste caso, claramente acompanhou o livre mercado e o desenvolvimento das instituições capitalistas. O mesmo aconteceu com a liberdade política na era de ouro da Grécia e nos primórdios da era romana.

(…)

A existência de um livre mercado não elimina, obviamente, a necessidade de governo. Pelo contrário, o governo é essencial tanto como fórum para determinar as “regras do jogo” quanto como árbitro para interpretar e aplicar as regras decididas. O que o mercado faz é reduzir significativamente a gama de questões que devem ser decididas por meios políticos e, assim, minimizar a extensão em que o governo precisa participar diretamente do jogo. A característica da ação por meio de canais políticos é que ela tende a exigir ou impor conformidade substancial. A grande vantagem do mercado, por outro lado, é que ele permite ampla diversidade. É, em termos políticos, um sistema de representação proporcional. Cada homem pode votar, por assim dizer, na cor de gravata que quiser e obtê-la; ele não precisa ver qual cor a maioria quer e então, se estiver em minoria, submeter-se.

É a essa característica do mercado que nos referimos quando dizemos que o mercado proporciona liberdade econômica. Mas essa característica também tem implicações que vão muito além do estritamente econômico. Liberdade política significa a ausência de coerção de um homem por seus semelhantes. A ameaça fundamental à liberdade é o poder de coagir, seja nas mãos de um monarca, um ditador, uma oligarquia ou uma maioria momentânea. A preservação da liberdade requer a eliminação dessa concentração de poder ao máximo possível e a dispersão e distribuição de qualquer poder que não possa ser eliminado por um sistema de freios e contrapesos. Ao remover a organização da atividade econômica do controle da autoridade política, o mercado elimina essa fonte de poder coercitivo. Permite que a força econômica seja um freio ao poder político, em vez de um reforço.

(…)

Questões para reflexão

1. Como Milton Friedman estabeleceu a conexão entre liberdade econômica e liberdade política em “Capitalismo e Liberdade”?

2. Qual é a essência da teoria monetarista de Friedman, expressa na frase “a inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetário”?

3. Como Friedman justificou suas críticas ao papel crescente do governo na economia, especialmente em relação aos programas sociais do pós-guerra?

4. Como a proposta de Imposto de Renda Negativo de Friedman se relaciona com os atuais debates sobre a Renda Básica Universal?

5. Como a experiência chilena com as políticas dos “Chicago Boys”, inspiradas por Friedman, informa os debates atuais sobre reformas econômicas em países em desenvolvimento?

6. Explique a defesa de Friedman pelos vales-escola: como eles promovem a competição na educação e abordam questões na educação pública?

7. Qual é a visão de Friedman sobre a responsabilidade social das empresas, conforme descrito em seu ensaio de 1970 “A Responsabilidade Social das Empresas É Aumentar Seus Lucros”?

8. Como Friedman vinculou o capitalismo competitivo à redução da discriminação, argumentando que os mercados priorizam o mérito em vez do preconceito?

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