I. Um almoço entre amigos

Recentemente almocei com três amigos em um encontro organizado por um deles. O organizador é um conservador; os outros dois são social-democratas — um, curiosamente, inclinado a posições libertárias em muitas questões e o outro, nem tanto.

Como costuma acontecer em nossos encontros, o tema da utopia voltou à tona e, mais uma vez, aqueceu o debate.

Meus dois amigos de inclinação esquerdista, porém, não costumam tratar o debate com o rigor que o tema exige. Raramente concedem tempo suficiente para que eu responda com propriedade às questões que levantam e quase nunca permitem que eu questione seus próprios pressupostos. Sua estratégia habitual consiste em formular perguntas sucessivas sobre temas tangenciais, sem jamais enfrentar diretamente o núcleo da discussão. O que deveria ser um debate transforma-se, assim, em uma espécie de inquisição.

De minha parte — reconheço que também não sou isento de falhas —, recorri propositalmente a algumas falácias argumentativas.

Como sei que no próximo encontro (que aprecio muito) provavelmente não terei a oportunidade de um debate mais equilibrado, resolvi escrever este pequeno texto. Sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, espero que ele nos permita dar um passo adiante em nossa próxima conversa.

II. Utopia

Utopia designa um lugar, uma sociedade ou um estado de existência imaginado no qual tudo seria perfeito — social, política, econômica e moralmente. Representa uma comunidade ideal em que problemas humanos como pobreza, criminalidade, desigualdade, doenças e conflitos teriam sido eliminados, permitindo que as pessoas vivam em harmonia, justiça e plenitude.

O termo foi cunhado pelo filósofo Sir Thomas More em sua obra Utopia (1516), a partir do grego ou-topos (“nenhum lugar”) + eu-topos (“bom lugar”). O jogo de palavras é deliberado: trata-se de um “bom lugar” que, no entanto, não existe em lugar algum — um ideal que talvez nunca possa realizar-se na realidade.

As principais características de uma visão utópica da sociedade costumam incluir:

  • Governança perfeita: liderança sábia e justa, frequentemente apresentada como não coercitiva (podendo assumir formas democráticas, ditaduras benevolentes ou até a ausência completa de governo formal).
  • Igualdade ou abundância econômica: supressão da propriedade privada nas versões mais radicais, ou pelo menos a eliminação da pobreza e das grandes disparidades de riqueza; distribuição “justa” dos recursos que garanta fartura para todos.
  • Harmonia social: ausência de crimes, guerras, discriminação e conflitos graves; laços comunitários fortes ou um individualismo esclarecido.
  • Perfeição moral e intelectual: cidadãos virtuosos, instruídos e racionais, com vícios e ignorância minimizados ou erradicados.
  • Harmonia tecnológica ou ambiental: uso sábio de tecnologia avançada ou retorno a um estado mais simples e natural.

A realidade, contudo, logo se impõe. Não existe consenso — nem mesmo entre os próprios autores utópicos — sobre como seria esse lugar ideal, quanto menos sobre como alcançá-lo. Quando a mentalidade utópica orienta quem detém o poder, o resultado costuma seguir uma sequência previsível: primeiro a restrição da liberdade de expressão, depois a limitação da participação nas decisões e, por fim, a violação dos direitos daqueles que se opõem à utopia, inclusive o direito à existência (mas, tudo em nome de um bem maior, a utopia imaginada pelo seu autor).

Quando restrita ao campo artístico ou intelectual, a utopia até produz obras interessantes, não obstante, sendo generoso, ingênuas (como a própria Utopia de Thomas More ou a letra de Imagine, de John Lennon). Quando, porém, é abraçada por governantes com poder real — especialmente os mais poderosos —, o dano às pessoas comuns torna-se apenas uma questão de tempo (o sacrifício vai valer a pena ao final, dizem os utópicos).

III. Alternativas ao pensamento utópico

Qual seria, então, a mentalidade oposta que deveria orientar o debate público? Não existe uma única resposta, mas várias abordagens complementares que, combinadas, permitem decisões mais prudentes e eficazes.

Comecemos pelo raciocínio concreto.

III.1. Raciocínio concreto

O raciocínio concreto contrasta diretamente com a natureza abstrata do pensamento utópico. Enquanto este opera no domínio dos ideais, das hipóteses universais e do “poderia ser” em um mundo perfeito, o raciocínio concreto permanece ancorado nas realidades específicas e tangíveis: condições existentes, fatos mensuráveis, detalhes concretos e problemas práticos imediatos. Concentra-se no que “é”, e não no que “deveria ser”.

Projetos utópicos são exemplos clássicos de pensamento abstrato levado ao extremo. O raciocínio concreto pergunta, de forma inescapável: “Como exatamente isso seria construído aqui e agora, com as pessoas reais e os recursos disponíveis?”

III.2. Raciocínio conservador (especialmente o burkeano)

Um dos contrastes mais clássicos e robustos é o oferecido por Edmund Burke. O pensador conservador criticou duramente o racionalismo abstrato e os projetos utópicos que inspiraram a Revolução Francesa. Para Burke, a sociedade é complexa e orgânica demais para ser redesenhada do zero com base em princípios da razão a priori. Em vez disso, ele defendia:

  • Respeito pela tradição, pelas instituições herdadas e pela sabedoria acumulada ao longo do tempo (o que ele chamava de “preconceito” em sentido positivo).
  • Mudanças graduais e orgânicas, baseadas na experiência concreta e não na perfeição teórica.
  • Ceticismo saudável em relação a intelectuais que impõem grandes esquemas abstratos, ignorando a natureza humana e a realidade histórica.

Burke alertava que projetos utópicos tendem a gerar caos e tirania porque tratam a sociedade como uma máquina a ser reconstruída, em vez de uma herança viva a ser cultivada com prudência.

III.3. Raciocínio pragmático e realista

Essa abordagem concentra-se no que é viável e eficaz na prática, levando em conta limitações reais, dilemas de escolha e o comportamento humano efetivo. Prioriza melhorias exequíveis em detrimento da busca por uma perfeição inalcançável. O utopismo, sob essa perspectiva, é visto como ilusão ou como o oposto direto do realismo político.

III.4. Engenharia social gradual (ou incremental)

Karl Popper distinguiu com clareza entre dois tipos de engenharia social. A engenharia utópica (ou holística) busca reformular toda a sociedade a partir de um projeto ou ideal abrangente. Já a engenharia social gradual propõe mudanças pequenas, direcionadas, testáveis e, preferencialmente, reversíveis. Seu objetivo é resolver problemas específicos, aprender com os erros e evitar a arrogância de uma reformulação total da sociedade. Popper via a abordagem utópica como intrinsecamente arriscada e propensa ao autoritarismo.

IV. O Green Book do Tesouro de Sua Majestade

No Reino Unido, qualquer proposta de política pública que demande recursos do Tesouro deve passar pelo Green Book — o manual oficial de avaliação ex ante e ex post de políticas públicas (Central Government Guidance on Appraisal and Evaluation). Esse documento incorpora de forma sistemática o raciocínio concreto, pragmático, gradual e conservador (prudente, se preferir). Ele se opõe frontalmente ao pensamento utópico ao exigir avaliação de opções, evidências do mundo real, análise de trade-offs, gestão de riscos e aprendizado com a experiência.

Vejamos seus principais elementos:

IV.1. Raciocínio concreto

  • Ênfase em fatos específicos, dados mensuráveis e evidências robustas (pesquisas, avaliações anteriores e estudos-piloto).
  • Monetização e quantificação dos impactos mais relevantes.
  • Objetivos SMART (específicos, mensuráveis, atingíveis, relevantes e limitados no tempo) e Fatores Críticos de Sucesso (FCS) claramente definidos.
  • Análise de sensibilidade e teste de premissas.
  • Comparação de todas as opções com o cenário de referência realista (Business as Usual — BAU).

IV.2. Raciocínio pragmático

  • Foco no Value for Money (VfM) como critério central — um julgamento equilibrado que considera impactos monetizáveis e não monetizáveis, efeitos distributivos e riscos.
  • Geração e filtragem explícita de múltiplas opções reais.
  • Esforço proporcional à escala e complexidade da proposta.
  • Mitigação de riscos avaliada sempre em relação aos custos e benefícios esperados.

IV.3. Raciocínio gradual (incremental e direcionado)

  • Aplicação a políticas, programas e projetos específicos, e não a reformulações globais da sociedade.
  • Inclusão sistemática de opções mínimas e variantes escaláveis.
  • Planejamento de projetos-piloto, implementação faseada e avaliação contínua (ciclo ROAMEF).
  • Aprendizado explícito com intervenções semelhantes anteriores.
  • Apresentação de custos e benefícios em termos absolutos, facilitando comparações incrementais.

IV.4. Raciocínio conservador

  • Ajuste obrigatório pelo viés de otimismo: custos e prazos são aumentados e benefícios reduzidos com base em evidências históricas.
  • Forte dependência de avaliações anteriores, estudos-piloto e evidências sobre “o que funciona”.
  • Transparência sobre incertezas, premissas e limitações.
  • O cenário Business as Usual como ponto de partida legítimo, e não uma “folha em branco”.
  • Identificação detalhada de riscos (incluindo riscos de cauda e consequências não intencionais) com reservas de contingência proporcionais.
  • Ausência de progressão automática para opções que não atendem aos Fatores Críticos de Sucesso.

V. Alinhamento geral com o pensamento antiutópico

O Green Book rejeita sistematicamente o raciocínio utópico ao:

  • Exigir a geração e comparação de múltiplas opções realistas, em vez de uma única solução ideal.
  • Incorporar correções explícitas para o viés de otimismo humano.
  • Insistir em evidências do mundo real e em avaliações posteriores.
  • Colocar os trade-offs viáveis no centro da decisão, em vez da busca por perfeição abrangente.
  • Tratar a mudança como um processo iterativo, testável e passível de correção, e não como um salto revolucionário.

Em suma, o documento institucionaliza o uso de dados concretos, compensações pragmáticas, testes graduais e cautela prudente baseada na experiência como prática padrão do governo britânico. Trata-se de uma materialização institucional do oposto ao pensamento utópico.

VI. Considerações adicionais

Os seres humanos são criaturas imperfeitas e falíveis. O mundo que construímos e habitamos é, como não poderia ser de outra forma, igualmente imperfeito e falível. Podemos — e devemos — melhorá-lo. Para isso, porém, é fundamental aprender com os sucessivos fracassos dos projetos utópicos ao longo da história.

Não se trata de proibir o pensamento utópico (é direito de qualquer pessoa, inclusive de meus amigos, que prezo muito). Trata-se, sim, de não gastar muito esforço com projetos utópicos, por que não vale a pena fazê-lo, e de submeter qualquer projeto que pretenda gastar recursos escassos — e, eventualmente, vidas humanas — ao filtro rigoroso da realidade antes de sua implementação.

Uma escala utópica
Podemos imaginar uma escala simples, organizada do mais idealizado para o mais realista para a solução dos problemas:
No topo: a proposta utópica (ideal em teoria, mas inatingível na prática);
Em seguida: a solução ótima (o melhor resultado teoricamente possível, considerando as leis humanas e da natureza conhecidas);
Depois: as boas soluções ou soluções satisfatórias (dentre as várias opções viáveis e exequíveis);
Na base: as soluções insuficientes e as ruins.
Nesse contexto, vale lembrar uma máxima bastante repetida entre engenheiros: o ótimo é inimigo do bom. Profissionais acostumados a lidar diariamente com as restrições da realidade material raramente se propõem a utopias. Às vezes buscam a solução ótima, mas na maioria das vezes se satisfazem — e fazem bem — com soluções boas, que funcionam de fato e podem ser implementadas com os recursos disponíveis.

Posted in

One response to “Utopias”

  1. MAPortocarrero Avatar
    MAPortocarrero

    Perfeito! Uma prova de que nem toda perfeição é utópica.

    Marcelo Augusto Portocarrero

    Like

Leave a comment