Sabemos, por experiência própria, que um alimento de boa qualidade, tanto quanto boas ideias, consumidos com prudência, podem nos fazer mais bem do que mal. E assim foi com o almoço referido pelo meu amigo. Além do saboroso peixe, degustamos e decantamos ideias valiosas naquele dia. Toda vez que em uma discussão a utopia é posta em questão pelos protagonistas do debate, e foi o caso, razões, sentimentos e emoções, de parte a parte, habitam determinados discursos, entrincheirados, sempre à espreita do momento em que se erguerão para alcançar o status argumentativo da ciência. Convenhamos que isso pode nos trazer algumas dificuldades quando pretendemos elucidar certas questões, sobremaneira aquelas postas em marcha pelo próprio pensamento utópico.
Ao nos cingirmos ao termo em si – e não costumamos prestar a devida atenção às palavras, sejamos honestos –, notamos que “utopia” não significa apenas “um lugar que não existe”, ou mesmo uma organização social que poderia vir a existir, embora não saibamos quando; aqui roçamos a superfície. Vamos adensar um pouco o argumento. Se consideramos que a utopia remete a uma ordem social vindoura, é uma obra a ser edificada. Divisamos, então, o problema de More desde outra posição: uma interrogação dirigida, de fato, não ao futuro – até porque seria absurda, pois não há o que perquirir sobre o desconhecido. Ao sopesarmos que projeta uma determinada sociedade como um não-lugar – posto que ainda não existe – a partir do que existia seu tempo, sua pergunta dirige-se ao presente e ao passado. E o que nos importa, se não somos indiferentes à ciência em nossos argumentos, é mais a pergunta do que a resposta. A propósito, a ciência não é a busca da verdade, mas de novas perguntas.
Voltemos. O que o problema de More ilumina é uma equivalência axiomática: em questões sociais e políticas toda projeção de benefícios é uma operação de custos no presente. E o que isso quer dizer em nosso caso? Vamos tentar entender o enunciado por partes. (i) A primeira mostra que a utopia não pode ser confundida com devaneios; estes são individuais, aquela é sempre coletiva. (ii) A segunda nos diz que na utopia há um problema temporal: como antecipar o futuro – o que, por si só, é nonsense, como vimos. (iii) A terceira denota que a utopia é, necessariamente, um custo coletivo. Dada a dimensão do texto, atenhamo-nos ao encaixe entre as proposições i e iii. É lícito sugerir que diante de um custo individual problema não há em exercitar a imaginação livremente flutuante; até as quimeras podem ser substantivadas, por que não? Mas quando o custo é coletivo, Jerusalém não desce para a terra. Precisamos dar conta de nossos problemas com o que temos, aqui e agora: uma relação entre escassez certa de recursos no presente e abundância incerta no futuro. Só assim podemos fazer retroceder o problema de More ao seu leito natural: em seus benefícios, a visão desde o futuro para o presente exige realizar do presente para o futuro, em seus custos. Trata-se de uma inversão de perspectiva que nos faculta penetrar o núcleo da questão moreana, que é epistemológica: o que podemos conhecer?
Para circunscrever o tratamento da problemática a dois dos mais notórios, vejamos o que Hayek e Simon nos ensinam a respeito: não há conhecimento disponível para alcançar uma distribuição ótima de recursos em qualquer sociedade. Dito de outro modo, não é possível conhecer uma função que possibilite alocar recursos de sorte a obliterar os trade-offs em questões sociais e políticas. O contrário exige conhecer todas as alternativas de escolhas e consequências. Em suma, nossa racionalidade é limitada para transformar meios que podemos conhecer em benefícios ótimos, desconhecidos por natureza.
E então batemos em um outro lado da rocha, em que nossa pá entorta de novo: quando as consequências são coletivas, dadas as premissas do contrato social, é preciso haver um critério de escolha distribuído na sociedade, que seja acessível aos interessados e por eles cognoscível de modo a ser compreensível. Qual é esse critério? É apenas um: a experiência acumulada pelas gerações. More sabia disso. Não por outra razão, como vimos, sua questão não se dirige ao futuro – seria possível uma sociedade em que a distribuição dos recursos não seja função de um trade-off? –, mas ao presente, com base no passado.
A utopia, isto posto, desvela-se para além das aparências: diz respeito a um problema de custos coletivos, não se trata de um distributivismo de benefícios. Assim, quanto mais coletivo for o custo, mais estruturadas pela experiência devem ser as escolhas sobre questões sociais e políticas. É quando os valores adquirem proeminência, pois são eles que tornam a experiência operacionalizável como critério: o que tem mais e o que tem menos valor dado seu uso – aquilo que é mais ou menos valorizado – impera sobre o conjecturável como o dispositivo que permite parametrizar uma escala de preferências na tomada de decisão. Por isso qualquer passagem da instância individual para a social, como é o caso da utopia, desloca o problema do âmbito da possibilidade para o da necessidade. Retirado, então, seu substrato – benefícios futuros possíveis desconsiderados os custos presentes em um contexto de racionalidade limitada na gestão dos recursos –, erode a sustentação da utopia. Não se sustenta na circunscrição da razão e da ciência, nos termos das quais deixa até mesmo de ser concebível.
É lícito partir de outras bases para projetar o futuro. Mais cedo ou mais tarde, porém, nossas arquiteturas coletivas, com fundamentos e operações que não passaram pelo tribunal da razão e da ciência, estarão frente a frente com o problema não antecipado das mediações; corremos o grave risco de sofrermos a vingança das consequências.

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